Um surto de doença de Chagas registrado na zona rural de Óbidos, no oeste do Pará, deixou sete pessoas infectadas após o consumo de vinho de patauá produzido artesanalmente. Três pacientes precisaram ser hospitalizados, e um deles está internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
A investigação epidemiológica aponta que pelo menos 31 pessoas foram expostas ao risco de contaminação após consumirem a bebida durante uma reunião familiar realizada no dia 21 de setembro. Os envolvidos são moradores das comunidades Fuzil e Liberdade, localizadas às margens da rodovia PA-429.
Entre os sete casos confirmados, quatro pacientes apresentam quadro estável e recebem tratamento em casa. Dos três hospitalizados, um foi transferido para a UTI do Hospital Menino Jesus, em Oriximiná, enquanto outra paciente permanece internada no Hospital Santa Casa de Óbidos.
Na fase aguda da doença, os pacientes apresentaram sintomas como febre alta, diarreia, dores abdominais, vômitos, dores pelo corpo e inchaço no rosto e nas pernas.
Outras pessoas seguem em monitoramento
As outras 24 pessoas que consumiram o vinho de patauá continuam sendo acompanhadas pelas equipes de saúde. Elas deverão passar por novos exames de sorologia em Belém, mesmo aquelas que tiveram resultado negativo no primeiro teste.
Duas pessoas que participaram da reunião viajaram para Manaus (AM), enquanto outras três foram para Oriximiná (PA). Todas também estão sendo monitoradas pelas autoridades de saúde.
A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) enviou medicamentos específicos para o tratamento da doença. A liberação ocorre após avaliação médica individual de cada paciente.
Local de produção foi interditado
Durante as investigações, equipes da Vigilância Sanitária e da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) identificaram irregularidades no local onde o vinho de patauá foi produzido, na Vila Liberdade.
O espaço foi interditado e lacrado. Segundo a fiscalização, a bebida era preparada para consumo da própria família e de vizinhos, sem comercialização. No entanto, a área de manipulação dos frutos apresentava condições inadequadas de higiene.
A máquina utilizada para despolpar o patauá funcionava em uma varanda aberta, sem proteção contra poeira e contra a entrada do inseto conhecido como barbeiro, transmissor da doença de Chagas.
O responsável pela produção suspendeu voluntariamente as atividades e recebeu prazo de 30 dias para realizar as adequações necessárias. Para voltar a produzir derivados de açaí, bacaba e patauá, deverá instalar barreiras físicas e participar de um curso de boas práticas de fabricação.
Como ocorre a transmissão?
A doença de Chagas é causada pelo parasita Trypanosoma cruzi. Na região amazônica, uma das principais formas de transmissão é a oral, que pode ocorrer quando alimentos ou bebidas são contaminados pelo parasita durante o processamento.
Isso pode acontecer quando o barbeiro ou suas fezes são triturados acidentalmente junto com os frutos utilizados na preparação de bebidas artesanais.
Entre as medidas de prevenção estão a higienização adequada dos frutos e o tratamento térmico, conhecido como branqueamento, que utiliza choque de temperatura para eliminar o parasita.
O episódio em Óbidos reforça a importância dos cuidados sanitários na produção artesanal de bebidas de frutos amazônicos. A contaminação não está associada ao fruto em si, mas à possibilidade de contato com o parasita durante o preparo inadequado.