Setenta e oito pessoas morreram na manhã desta quarta-feira (14) depois de o barco em que estavam afundar na Grécia. Outras cem pessoas foram resgatadas.
Segundo a polícia, as vítimas eram migrantes que saíram da Líbia e tentavam chegar na costa da Itália.
O naufrágio aconteceu nas águas internacionais do Mar Jônico, perto da península grega do Peloponeso.
Uma grande operação com um avião e um helicóptero das Forças Armadas gregas, além de seis embarcações, foi montada, mas fortes ventos complicam a ação.
"A partir das primeiras horas da quarta-feira, uma grande operação de resgate foi iniciada em Pilos, depois que um barco de pesca naufragou com um grande número de migrantes a bordo", afirmou a Guarda Costeira grega.
Os resgatados foram levados para Kalamata, sudoeste de Athenas, e quatro deles, que estavam em condição crítica, foram transportados de helicóptero para um hospital local.

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A Guarda Costeira informou que um avião de vigilância da agência europeia Frontex detectou a presença da embarcação na tarde de terça, mas que os passageiros "recusaram ajuda".
Grécia, Itália e Espanha são os principais destinos de dezenas de milhares de pessoas que tentam chegar à Europa a partir da África e do Oriente Médio.
Atualização - Grécia impõe silêncio sobre naufrágio, e conduta da Guarda Costeira é criticada
O silêncio imposto pela Grécia ao redor no naufrágio do Adriana, barco pesqueiro que carregava mais de 700 migrantes que tentavam chegar a Europa, alimenta dúvidas sobre o papel das autoridades no desastre da semana passada. Desde o incidente veio à tona — situações similares ocorrem com alguma frequência no Mediterrâneo, mas a do dia 14 de junho foi uma das piores —, há indagações sobre o que a Guarda Costeira grega e o Ministério das Migrações poderiam ter feito diferente.
Após o naufrágio, apenas 104 pessoas — 47 sírios, 43 egípcios, 12 paquistaneses e dois palestinos, todos homens — foram resgatadas. Na segunda, as equipes de busca encontraram mais dois corpos, já em estado avançado de decomposição, o que leva o número de cadáveres resgatados a 80. Conforme passam as horas, achar mais resquícios das vítimas torna-se mais difícil.
Enquanto estiveram no porto de Kalamata, os resgatados tiveram tanto sua mobilidade quanto suas comunicações limitadas e foram postos pela Guarda Costeira em um local de onde não podiam sair. Depois, foram postos tapumes perto dos banheiros químicos ao lado do prédio para impedir que os jornalistas fizessem perguntas às vítimas pela cerca. Alguns parentes conseguiram abraçar os resgatados, mas as forças de segurança gregas mantiveram a imprensa longe.
O comandante da Guarda Costeira grega, Sotiris Tsoulos, não respondeu ao El País por que foram impostas aos resgatados restrições similares às de um cárcere. Limitações aos movimentos de migrantes econômicos e solicitantes de asilo é algo comum na Grécia, e com frequência denunciado por organizações humanitárias. Geralmente, no entanto, não há resposta.
As restrições continuaram após os migrantes terem sido movidos de lugar e de tutela, agora para a responsabilidade do Ministério das Migrações e Asilo. Ahmed é um sírio que vive no Reino Unido e que, depois de ouvir sobre o naufrágio, viajou primeiro para Kalamata e depois para o campo de Malakasa para encontrar seu primo. Lá, segundo ele, as condições do parente são as seguintes:
— Ele está bem, em boas condições. Mas não deixam que ele saia e o vigiam o dia inteiro — disse ao El País. — Eles podem usar o telefone para se comunicar com as famílias, a gestão do campo permite.

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Versões divergentes
As hesitações sobre a conduta oficial, contudo, começam desde antes de o naufrágio acontecer. Pouco após o incidente, as autoridades gregas afirmaram que um barco de sua guarda costeira avistou o navio, mas que não houve intervenção porque os passageiros — e seus traficantes — teriam rechaçado e afirmado que preferiam seguir viagem até seu destino na Itália.
Uma abordagem também teria sido perigosa, disse o porta-voz da Guarda Costeira, Nilos Alexiou, dado que a embarcação estava superlotada. Tentar "violentamente parar seu curso" a contragosto, afirmou ele, poderia ter ocasionado um "acidente marítimo". Por mais que ela estivesse na zona de busca e resgate grega, "não podemos intervir em águas nacionais contra um barco que não está engajado em contrabando ou algum outro crime".
Alexiou aparentemente referia-se ao contrabando de drogas ou armas, mas não de pessoas. A decisão de seu governo, ainda assim, levanta acusações de que o governo grego não queria se responsabilizar pelos migrantes, buscando empurrar a tarefa para os italianos.
— A Guarda Costeira grega reconheceu que o barco estava com problemas, e isso é uma análise objetiva, eles deveriam ter tentado resgatá-lo independentemente de qualquer coisa — disse Markella Io Papadouli, advogada especialista em lei marítima e direitos humanos no Centro para Conselho de Direitos Individuais na Europa. — Negociar com traficantes é como negociar com sequestradores de aviões.
Segundo a especialista, ao contrário do que diz Atenas, nenhum pedido formal de S.O.S. precisaria ter sido feita. E por mais que haja relatos de chamados de urgência feitos aos gregos — o grupo de ajuda aos migrantes Alarm Phone afirma ter recebido alertas cerca de 12 horas antes do naufrágio e os enviado às autoridades —, focar no assunto é um erro.
De acordo com uma lei de 2014 da União Europeia (UE) que estabelece "regras para a fiscalização de fronteiras marítimas externas", um pedido de assistência é critério para resgate, "mas tal solicitação não deve ser o fator único para determinar a existência de uma situação de emergência". Outras condições são o estado da embarcação, a probabilidade dela chegar a seu destino final, o nível de lotação e a quantidade de recursos.

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Sob pressão?
Na segunda, a pressão sobre as autoridades gregas aumentou conforme mais relatos de vítimas e reportagens começaram a vir à tona. De acordo com a BBC, a embarcação não se moveu por sete horas. Os gregos, entretanto, haviam dito que o barco havia navegado 30 milhas náuticas do momento em que foi detectado, no último dia 13, até afundar.
Atenas aponta os dedos para nove homens presos por suspeita de serem os traficantes, afirmando que eles rejeitaram água potável para manter os imigrantes com sede e dóceis, em uma tentativa de permanecer sob controle. Mas também há indícios de que os próprios gregos violaram as regras.
De início, a Guarda Costeira negou sequer ter amarrado cabos na embarcação pesqueira, algo que alguns sobreviventes afirmam ter causado o desastre. Depois, reconheceu que a abordagem aconteceu brevemente: um cabo foi amarrado para avaliar a condição do barco e de seus passageiros — alguns deles, segundo testemunhas, já estavam mortos devido à falta d'água e ao calor.
A especulação de que os gregos queriam se esquivar da responsabilidade de lidar com os imigrantes foi reforçada por relatos de navios que estavam na região. Segundo a BBC, o mercante Lucky Sailor teria sido instruído pela Guarda Costeira grega a ceder água e comida. De acordo com o New York Times, outra embarcação, o Faithful Warrior, deu ao pesqueiro água e comida por volta de 21h30 de segunda. Os imigrantes foram ouvidos gritando "Itália, Itália".
Cerca de 15 minutos depois, o capitão do Faithful Warrior, Panagiotis Konstantinidis, disse que o pesqueiro estava "sacudindo perigosamente" devido à superlotação. Algum tempo depois, os passageiros lançaram os suprimentos no mar.
De acordo com os documentos oficiais gregos, o barco parou de se locomover às 23h45, quando a Guarda Costeira lançou uma corda para averiguar a situação:
"Ouvimos vozes em inglês — 'sem ajuda, para a Itália' — e apesar de perguntarmos repetidas vezes se queriam ajuda, eles nos ignoraram e, por volta de 23h57, soltaram o cabo. Eles ligaram novamente o motor do barco e o moveram em direção ao oeste em velocidade baixa", diz a ata.
Segundo Konstantinidis, os serviços de resgate do seu navio foram dispensados pelo centro de controle grego por volta de 12h18, que foi instruído a seguir viagem. De acordo com os gregos, o barco pesqueiro teria parado de se mover às 1h40, o que fez a Guarda Costeira se aproximar novamente para avaliar a situação. Vinte e seis minutos depois, contudo, há relatos de que o naufrágio havia começado.
"Dentro de alguns segundos o barco virou, fazendo com que as pessoas no deque externo caíssem no mar e o barco afundasse", afirma o documento grego.
No Paquistão, na segunda, o primeiro-ministro Shehbaz Sharif declarou um dia de luto para os 104 cidadãos do país cuja morte já foi confirmada. Muitos deles eram da Caxemira, a região historicamente disputada entre a Índia e o Paquistão. O governo paquistanês prometeu investigar e punir os responsáveis por "um ato hediondo de tráfico humano".
A ONU também pediu uma investigação paralela, em meio às trocas de versões do governo grego.