O real brasileiro foi a segunda moeda que mais se valorizou em relação ao dólar no mês de janeiro, ficando atrás apenas do rublo russo, que registrou alta de 6,8%. A moeda brasileira encerrou o mês com uma valorização acumulada de 5,6%, após o dólar cair de R$ 6,18 no início do ano para R$ 5,8355 na sexta-feira (31). Os dados são da Refinitiv, marca pertencente à London Stock Exchange Group (LSEG), que fornece dados e análises para o mercado financeiro global. O resultado marca o décimo dia consecutivo de queda da divisa norte-americana frente ao real.
A valorização do real ocorre após um cenário de forte desvalorização em 2023, quando a moeda brasileira foi uma das que mais perderam valor no mundo, com o dólar acumulando alta de 27% no ano passado. Grande parte dessa desvalorização ocorreu em dezembro, após o anúncio de um pacote fiscal pelo governo brasileiro, que gerou desconfiança no mercado financeiro.
Além do real, outras moedas também enfrentaram pressão no final de 2023, impulsionadas por incertezas em relação à política econômica que seria adotada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, caso retornasse à Casa Branca. Durante sua campanha, Trump sinalizou uma postura protecionista, com a possibilidade de implementar tarifas de importação, o que poderia levar a inflação e juros mais altos nos EUA. No entanto, após assumir o cargo, o republicano adotou um tom mais moderado, especialmente em relação à China, e adiou medidas tarifárias que havia prometido.
Segundo Emerson Junior, head de câmbio da Convexa, a mudança no discurso de Trump contribuiu para um cenário mais favorável ao real. "Do final do ano passado até a posse, Trump amenizou o discurso, que até agora não se caracterizou agressivo como prometia. Com isso, voltou para a mesa a possibilidade de cortes de juros nos Estados Unidos, e investidores voltaram a buscar oportunidades em países com taxas de juros mais altas, como o Brasil", explicou.
A alta da taxa básica de juros no Brasil, a Selic, que deve chegar a 14,25% em março, tem atraído investidores estrangeiros em busca de ganhos com o chamado carry trade – estratégia que consiste em captar recursos em países com juros baixos e aplicá-los em locais onde os juros são mais elevados. Christian Iarussi, sócio da The Hill Capital, destacou que a decisão do Federal Reserve (Fed) de manter os juros nos EUA e a expectativa de cortes na Europa também reforçam a atratividade do real.
No entanto, especialistas alertam que o cenário ainda pode mudar. "O jogo ainda está aberto. O cenário global segue incerto, e qualquer nova tensão entre EUA e países dos Brics pode virar essa maré rapidamente. No Brasil, o mercado deve reagir aos desdobramentos fiscais e à política monetária, com a Selic ainda no centro das atenções", ponderou Iarussi.