Indígenas da etnia Munduruku cobram a entrega do Hospital Regional do Tapajós, em Itaituba, no sudoeste do Pará. A entrega atrasou e parte da estrutura já está pronta para atender pacientes de Covid-19, mas a unidade aguarda instalação da central de oxigênio, segundo a Secretaria de Saúde do Pará (Sespa). Sem o hospital, a região do Tapajós fica sem leitos para tratar a doença e a população, incluindo indígenas, precisa ser transferida para outras cidades.
As obras começaram em 2013 e, até então, o hospital nunca foi inaugurado, motivando protestos há anos na cidade. De acordo com a Sespa, a abertura estava prevista para a última sexta (26), mas foi adiada para a primeira quinzena de julho, com 54 leitos clínicos e 20 de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
"Até quando vai continuar essa novela da inauguração?", diz o indígena Karo Munduruku.

Indígena Karo Munduruku. (Reprodução)
Ele afirma, ainda, "enquanto isso, a população fica vendo seus entes queridos em estado grave sendo encaminhados para Santarém, até mesmo para Belém, sabendo que existe um hospital aqui que já poderia ser inaugurado, antes mesmo da pandemia".
Karo vive em uma aldeia na Reserva Indígena Praia do Mangue, em Itaituba, onde segundo ele já morreram duas pessoas por complicações da Covid-19. O indígena relata que um infectado teve que ser transferido para uma UTI em Belém e outro morreu no município.
"O oeste também é Pará e o governo tem governado para Belém e região metropolitana. Isso está errado! Se for falar de economia, a região tem ajudado há bastante tempo no desenvolvimento econômico do estado", cobra.
Segundo Karo, o hospital "poderia ter evitado mais de 50 mortes que ocorreram na região e que ainda podem acontecer", incluindo indígenas mortos na região.
"Todos aqui da região querem saber qual motivo (do atraso na entrega do hospital), será que é mais importante os números de mortes do que a vida?", conclui.
Dados da Covid-19 entre indígenas da região Tapajós
De acordo com dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a região do rio Tapajós soma 525 casos confirmados de Covid-19 e 10 óbitos entre índigenas. São 66 casos suspeitos, 270 descartados, 467 com o vírus ativo e 47 com cura clínica.
Sem leitos de UTI, os indígenas são primeiramente atendidos no Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Tapajós, em Itaituba, estendendo atendimento pelo rio Tapajós, destinado a uma população de 12.722 indígenas, de quatro etnias, compostas por 141 aldeias. A unidade atende quatro municípios, segundo os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena.
'Outro lado'
Em nota, a Sespa informou que já disponibilizou alas específicas para comunidade indígena nos hospitais de campanha em Belém, Marabá, Santarém e Breves.