O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro (PL), afirmou em depoimento que um juiz do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuava como informante sobre o paradeiro do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A revelação consta do interrogatório realizado pelo próprio Moraes em novembro de 2024, como parte da colaboração premiada de Cid, que teve o sigilo suspenso na última quarta-feira (19/2). O magistrado do TSE não foi identificado nominalmente nos autos, mas o ministro do STF afirmou que ele já foi localizado.
A delação de Cid integra a investigação da Polícia Federal (PF) e embasou a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao STF na última terça-feira (18/2). Além de Bolsonaro, outras 33 pessoas, incluindo militares, ex-ministros e integrantes do governo anterior, foram denunciadas por suposta participação em ações golpistas após as eleições de 2022. O plano, segundo as investigações, incluía monitorar, prender, sequestrar e até assassinar Moraes, que presidia o TSE na época.
De acordo com os autos, em dezembro de 2022, Bolsonaro teria ordenado o monitoramento de Moraes após as eleições. No dia 16 daquele mês, assessores da Presidência rastrearam o ministro, que se reunia com o então vice-presidente Hamilton Mourão em São Paulo. Cid relatou que, ao ser informado do encontro, Bolsonaro ficou nervoso e demandou detalhes. O militar repassou o pedido ao coronel Marcelo Câmara, ex-assessor da Presidência, que obteve informações por meio do juiz do TSE.
Em trechos do depoimento, Cid explicou que a estrutura de inteligência seguia o princípio de "compartimentação da informação", evitando expor a identidade dos informantes. "Não sei quem era o contato [do coronel Câmara]. Sei que um dos contatos dele era um juiz do TSE", afirmou o ex-ajudante. O ministro Alexandre de Moraes destacou, durante o interrogatório, que o magistrado em questão já havia sido identificado, mas seu nome permanece sob sigilo.
A colaboração premiada de Cid detalha ainda que o suposto esquema de vigilância contra Moraes integrava um plano mais amplo para desestabilizar instituições democráticas após a derrota eleitoral de Bolsonaro. A PGR aponta, na denúncia, que as ações teriam como objetivo criar um ambiente de crise que justificasse intervenções ilegais. O caso segue em análise no STF, e os denunciados poderão se manifestar nos autos antes de qualquer decisão judicial.